História da dança do ventre
- Patrícia Kalidus
- 3 de fev. de 2023
- 4 min de leitura
Atualizado: 3 de abr.

Existe várias histórias sobre a origem da dança do ventre:
Dança do Ventre surgiu no Antigo Egito, em rituais, cultos religiosos, onde as mulheres dançavam em reverência a deusas. Com movimentos ondulatórios e batidas de quadril, as mulheres reverenciavam a fertilidade, celebravam a vida, era uma dança ritualística, em caráter religioso, sem apresentações em público. Essas mulheres reverenciavam as deusas que acreditavam ser as responsáveis pela vida da terra, pela vida gerada no ventre da mulher, e pelos ciclos da natureza.
Há quem diga que ao dançarem as mulheres também se preparavam para ser mães, já que a movimentação da Dança do Ventre ajudava a fortalecer a região pélvica, facilitando o parto.
Esse caráter religioso da Dança do Ventre, a qual era realizada em rituais sagrados em homenagens as deusas sagradas era praticada somente por mulheres, nas quais umas aprendiam com as outras informalmente, essa prática se modificou-se com o passar dos tempos. A dança do ventre hoje não é mais praticada como um ritual religioso, mesmo que muitos ainda a vejam como uma prática sagrada, exemplo a dança do sagrado feminino.
A característica mais evidente hoje da Dança do Ventre é cultural, artística e profissional.
Muitos anos após seu provável surgimento, a Dança do Ventre passou por muitas e diversas influências culturais de diferentes épocas e países, e sofreu as alterações de países ocidentais onde ela chegou.
Há fontes gregas e romanas, incluindo Juvenal e Marcial , descrevem dançarinos da Ásia Menor e da Espanha usando movimentos ondulantes, tocando snujs, descrições que certamente sugerem os movimentos que hoje são associados a dança do ventre. Mais tarde, nos séculos 18 e 19, viajantes europeus no Oriente Médio, como Edward Lane e Flaubert , escreveram extensivamente sobre os dançarinos que viram lá, incluindo os Awalim e Ghawazi .do Egito.
Em seu livro, Andrew Hammond observa que os praticantes da forma de arte concordam que a dança do ventre está alojada especialmente na cultura egípcia, ele afirma: "o historiador grego Heródoto relatou a notável habilidade dos egípcios de criar para si diversão espontânea, cantando, batendo palmas e dançando em barcos no Nilo durante numerosos festivais religiosos. É de algum lugar nesta grande e antiga tradição de alegria que a dança do ventre surgiu."
No Império Otomano , a dança do ventre era realizada por mulheres e, posteriormente, por homens, no palácio do sultão.
A dança do ventre (também chamada de Raqs Baladi ou Raqs Shaabi neste contexto) é realizada em festas e reuniões sociais por pessoas comuns (homens e mulheres, jovens e idosos), em suas roupas comuns. Em sociedades mais conservadoras ou tradicionais, esses eventos podem ser segregados por gênero, com festas separadas onde homens e mulheres dançam separadamente.
Historicamente, os artistas de dança profissionais eram os Awalim (principalmente músicos e poetas), Ghawazi . As irmãs Maazin podem ter sido as últimas artistas autênticas da dança Ghawazi no Egito, com Khayreyya Maazin.
A "dança do ventre", como é conhecida hoje no Ocidente, é uma das formas de arte mais antigas do mundo, cercada de misticismo, estereótipos e uma rica herança cultural.
Curiosamente, o termo que usamos é uma invenção ocidental (derivado do francês danse du ventre). No Oriente Médio, ela é tradicionalmente chamada de Raqs Sharqi (Dança do Oriente) ou Raqs Baladi (Dança Folclórica/Popular).
A verdadeira origem dessa dança é objeto de debate entre historiadores, mas a realidade afasta-se bastante do mito hollywoodiano de mulheres dançando para seduzir sultões em haréns.
Raízes Ancestrais: Fertilidade e Celebração
Longe de ser um espetáculo focado no olhar masculino, a maioria das evidências aponta que a dança nasceu de rituais exclusivamente femininos.
* Cultos de Fertilidade: Na Antiguidade, em regiões que abrangem o Norte da África, o Mediterrâneo e o Oriente Médio, movimentos focados no quadril, abdômen e pelve eram usados para reverenciar deusas da fertilidade e celebrar os ciclos da natureza.
* Preparação para o Parto: Acredita-se que os movimentos circulares, as ondulações e as batidas secas serviam como uma espécie de "fisioterapia ancestral". Mulheres dançavam juntas, em tendas ou quartos fechados, para fortalecer o assoalho pélvico da gestante e imitar os movimentos necessários durante as contrações, tornando o parto mais seguro e menos doloroso.
A Influência Nômade e o Império Otomano
A evolução técnica e a expansão da dança estão intimamente ligadas às rotas comerciais e às migrações de povos nômades.
* As Ghawazee do Egito: O povo Romani (ciganos), conhecido no Egito como Ghawazee, viajou da Índia para o Oriente Médio, absorvendo e misturando as danças locais com suas próprias tradições. Elas foram fundamentais para tirar a dança do ambiente doméstico e levá-la para praças, mercados e festividades públicas.
* A Era Otomana: Durante o Império Otomano, a prática se dividiu claramente: existiam as danças familiares celebradas em casa por pessoas comuns (casamentos e nascimentos), e os artistas contratados que se apresentavam em banquetes e cortes.
O Olhar Ocidental e a Invenção do Estilo "Cabaret"
A estética da dança do ventre que imaginamos hoje — com os trajes brilhantes de duas peças deixando a barriga de fora é uma construção relativamente moderna, fruto de uma intensa troca cultural com o Ocidente.
* A Exposição Universal de Chicago (1893): Dançarinas do Oriente Médio se apresentaram nos Estados Unidos em pavilhões culturais. Os movimentos isolados de tronco e quadril, até então inéditos para os americanos da rígida era vitoriana, causaram choque e fascínio profundo. Foi nessa época que o termo Belly Dance explodiu em popularidade.
* A Era de Ouro do Cinema Egípcio (1920-1950): O visual clássico de "cabaré" (chamado de Bedlah, que inclui o top bordado, a saia fluida e o cinto) surgiu nos clubes noturnos do Cairo. Essa mudança foi impulsionada pela própria Hollywood! Para agradar aos turistas europeus e competir com o cinema estrangeiro, o Egito criou uma estética mais glamourosa e teatral. Grandes estrelas como Samia Gamal e Tahia Carioca elevaram a dança folclórica de chão para um espetáculo de palco requintado, incorporando até elementos do balé clássico e da dança contemporânea.

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