O banimento, leis e proibições
- Patrícia Kalidus
- 4 de abr.
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O governo do Egito expulsou ou proibiu as dançarinas do ventre em diferentes momentos históricos, motivado por razões morais, religiosas ou políticas.
Tudo começou com o decreto de Muhammad Ali Pasha, o governante otomano que desejava transformar o Egito em uma potência moderna aos moldes europeus. Em 1834, ele ordenou a expulsão imediata de todas as dançarinas públicas (as Ghawazee) do Cairo e de Alexandria, sob a justificativa oficial de combater a "imoralidade" o banimento também visava modernizar a imagem do país perante os visitantes europeus e aumentar a arrecadação de impostos sobre a prática em outras regiões.
O Exílio no Alto Egito
As dançarinas foram forçadas a se mudar para cidades como Esna, Luxor e Aswan. Longe da capital, a arte não morreu; pelo contrário, ela se adaptou. No sul, as Ghawazee passaram a se apresentar para viajantes ocidentais que subiam o Nilo. Ironicamente, foi esse exílio que alimentou o "Orientalismo" europeu, transformando a dança do ventre em um símbolo exótico e misterioso que logo estamparia cartões-postais e diários de viagem de escritores como Gustave Flaubert.
O Retorno e a Estetização
O banimento durou cerca de 30 anos, sendo revogado em 1866. No entanto, a dança que retornou ao Cairo já não era a mesma. Com a abertura do Canal de Suez e a influência dos cabarés europeus, a dança de rua começou a migrar para os palcos fechados. Foi nesse período que o figurino de duas peças com pedrarias começou a ganhar forma, moldado mais pela fantasia de Hollywood e dos cassinos do que pela tradição rural.
Legado e Censura Atual
A tensão entre a dança e o Estado nunca desapareceu totalmente. Até hoje, as dançarinas egípcias vivem sob o olhar atento da Polícia de Costumes. O governo impõe regras rígidas de vestimenta como a obrigatoriedade de cobrir o umbigo, e a profissão ainda carrega um estigma social complexo: embora a dança seja o "coração" das festas egípcias, as artistas frequentemente enfrentam batalhas judiciais por "incitação à libertinagem".
No contexto tradicional e histórico da dança no Egito, os dançarinos homens são conhecidos principalmente como Raqs Sharqi Mu'assir (dançarinos orientais) ou, de forma mais específica e histórica, como Khawal.
Aqui estão os termos e as distinções importantes:
Khawal: Este é o termo histórico mais famoso. Durante o banimento das mulheres em 1834 por Muhammad Ali Pasha, os homens passaram a se vestir com roupas femininas (ou uma mistura de trajes masculinos e femininos) e a imitar os movimentos das Ghawazee para entreter o público. Eles eram artistas profissionais que ocuparam o vácuo deixado pelas dançarinas exiladas.
Raqs Sharqi Masculino: No cenário moderno, o termo técnico é simplesmente o equivalente masculino para "dançarino de dança oriental". Diferente dos Khawal, os dançarinos modernos geralmente não tentam se passar por mulheres, focando em uma estética que mistura força, controle muscular e elementos folclóricos.
Dançarinos de Tanoura: Embora seja uma dança sufi e não "do ventre" propriamente dita, os homens que realizam os giros hipnóticos com saias coloridas são frequentemente confundidos ou associados aos espetáculos de dança oriental no Egito.
Mazin Boys / Ghawazi Men: Em algumas linhagens familiares tradicionais (como a família Mazin), os homens também dançam estilos folclóricos específicos que utilizam bastões (Saidi), uma vertente masculina muito respeitada da dança egípcia.
Embora a dança do ventre seja vista mundialmente como feminina, o Egito tem uma história riquíssima de homens que mantiveram a arte viva, especialmente nos períodos de repressão estatal.
Proibição de Estrangeiras (2004): Em janeiro de 2004, o Ministério do Trabalho proibiu a concessão de licenças para dançarinas do ventre estrangeiras. O objetivo era proteger o emprego de dançarinas locais e preservar a "autenticidade" da arte egípcia. Devido à forte pressão e processos judiciais, a proibição foi revogada em setembro do mesmo ano
Restrições e Censura Recentes: Nas últimas décadas, governos mais conservadores impuseram leis rígidas sobre os figurinos (exigindo que o ventre esteja coberto) e prenderam dançarinas sob acusações de "incitação à libertinagem". Em 2014, por exemplo, órgãos religiosos e o governo suspenderam programas de TV dedicados à dança por considerá-los ofensivos aos valores tradicionais

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